

"Ocorrência do Cryptosporidium spp. em bezerros na Região dos Pereiras, município de Uberlândia - MG - Brasil."
OLIVEIRA, C.B..1
1 - Médico veterinário, mestrando em Medicina Veterinária - UFV.
INTRODUÇÃO E FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O Cryptosporidium é um protozoário da família Cryptosporidiidae descrito por TYZZER apud MUNDIM et al. (1995) em glândulas gástricas de camundongos de laboratório, denominando-os de C. muris. Em 1912, o mesmo autor encontrou outra espécie, C. parvum, no intestino delgado de camundongos. O Cryptosporidium tem sido observado na maioria dos animais domésticos (bovinos, ovinos, caprinos, equinos e suínos), animais de estimação (cães e gatos), mamíferos silvestres, aves domésticas e silvestres, répteis, peixes, primatas e homem, não apresentando especificidade de hospedeiro.
Segundo UPTON & CURRENT (1985) C. muris e C. parvum são diferenciados pelo tamanho e morfologia dos oocistos, sendo o de maior tamanho o C. muris.
A criptosporidiose é uma zoonose que pode afetar principalmente a população que vive próxima à animais (ANDERSON et al., 1982; TZIPORI, 1983). Os primeiros casos de criptosporidiose humana foram reconhecidos em 1976 em uma criança e um adulto imunossuprimido, ambos com um quadro de diarréia.
Há muita controvérsia sobre o papel do Cryptosporidium como agente causador de diarréia em animais e no homem, uma vez que ele também pode ser encontrado nos indivíduos sadios (BLOOD & RADOSTITS, 1991).
ARACAY & BRUZUAL (1991), realizaram um estudo associando criptosporidiose e fontes de água de rios da Venezuela. O trabalho foi desenvolvido com a população que habitava as margens dos rios. As amostras fecais coletadas, tanto de humanos quanto de animais, estavam todas (100%) positivas para Cryptosporidium spp..
A transmissão do protozoário ocorre principalmente através de contaminação fecal-oral, sendo a transmissão pela água de extrema importância em saúde pública pela facilidade de disseminação dos oocistos que podem ocasionar o aparecimento de surtos epidêmicos de diarréia (SMITH & ROSE, 1990).
O pequeno tamanho do parasita pode limitar a eficácia dos filtros comumente usados (CASEY, 1991).
Os criptosporídeos resistem a todos os agentes anticoccidianos conhecidos, e a maioria dos desinfetantes, assim como à rotina de cloração da água, podendo sobreviver por longos períodos no ambiente (SMITH & ROSE, 1990), sendo porém sensíveis à fervura.
Ambas as espécies de Cryptosporidium ocorrem em bovinos, sendo que o C. parvum é o responsável pela maioria de casos de enterite em mamíferos (VASQUEZ et al., 1986).
O primeiro caso de criptosporidiose bovina foi descrito nos Estados Unidos em 1971.
No Brasil, a literatura relatando a ocorrência do Cryptosporidium em animais é vasta (OGASSAWARA et al., 1989; GARCIA et al., 1989; FALCI et al., 1991).
MUNDIM et al. (1995), em Uberlândia, analisando amostras fecais coletadas de 112 bezerros com idades variadas, encontraram 28 animais (25,0%) que estavam positivos para oocistos de Cryptosporidium.
MARTINS et al. (1991), utilizaram no Rio Grande do Sul, a técnica de Ziehl-Neelsen modificado para investigar a presença de Cryptosporidium spp. , em 234 amostras de fezes de suínos com idades de 25 a 40 dias, com quadro clínico de diarréia. Foi detectada a presença do agente num percentual de 2,13% das amostras examinadas.
GARCIA & LIMA (1993) encontraram em 305 animais, 85 (27,87%) bezerros lactentes positivos em 18 municípios de Minas Gerais.
Devido a importância do Cryptosporidium em Saúde Pública como zoonose, e como possível agente causador de diarréia nos animais, que se constitui numa das enfermidades que afetam a criação de bovinos, justifica-se a execução do presente estudo cujo objetivo é: determinar a ocorrência do Cryptosporidium spp em bezerros na região dos Pereiras no município de Uberlândia-MG.
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METODOLOGIA
O trabalho foi desenvolvido com bovinos de aptidão leiteira, procedentes de 9 fazendas, localizadas na região dos Pereiras, município de Uberlândia, estado de Minas Gerais, sendo a coleta efetuada no período de 14 de setembro a 29 de outubro de 1997.
As fazendas foram classificadas de A à I e as fezes foram coletadas em 123 animais de recém-nascidos até 6 meses de idade, diretamente do reto, com luvas descartáveis, classificadas em diarreicas e não-diarreicas, armazenadas em sacos plásticos devidamente etiquetados e identificados, acondicionadas em caixas térmicas com gelo e transportadas até o Laboratório de Doenças Parasitárias da Universidade Federal de Uberlândia, onde foram armazenadas em um freezer a – 4ºC, para posterior processamento.
As amostras foram descongeladas e processadas pelo método de Ziehl-Neelsen modificado, da seguinte forma:
1 – Descongelamento das fezes à temperatura ambiente.
2 – Homogenização das fezes e retira-se aproximadamente 0,5 g de fezes.
3 – Pipeta-se 4 ml de solução fisiológica, junta-se com 0,5 de fezes e homogeniza.
4 – Centrifuga-se esta suspensão por 10 minutos a 2.500 rpm.
5 – Retira-se 3,5 ml.
6 – Acrescenta-se ao tubo de ensaio 0,5 ml de H2O2 a 10%, homogeniza, e deixa repousar por 10 minutos.
7 – Acrescenta-se a este tubo 9 ml de soro fisiológico e centrifuga-se a 2.500 rpm.
8 – Retira-se 9 ml.
9 – Repete-se o procedimento 7.
10 – Retira-se a solução fisiológica.
11 – Faz-se o esfregaço e deixa secar à temperatura ambiente.
12 – Coloca-se álcool metílico sobre a lâmina e deixa-se repousar durante 5 minutos.
13 – Retira-se o excesso de álcool e seca-se a temperatura ambiente.
14 – Cobre-se com fucsina fenicada a lâmina deixando por 21 minutos, aquecendo a lâmina a cada 7 minutos.
15 – Lava-se com água corrente.
16 – Coloca-se ácido sulfúrico a 7% e deixa-se por 1 minuto.
17 – Lava-se com água corrente.
18 – Coloca-se verde malaquita e deixa-se por 2 minutos.
19 – Lava-se com água corrente durante 2 minutos e seca-se à temperatura ambiente.
Após a lâmina foi examinada no microscópio óptico na objetiva de 100x com óleo de imersão, para a identificação do parasito, segundo caracteres morfológicos (SOULSBY, 1976) (Figura 1). Para análise estatística dos resultados utilizou-se o teste de dispersão de frequência (ou X2), segundo SNEDECOR & COCHRAN (1994).
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RESULTADOS
Das 123 amostras analisadas, 12 (9,75%) estavam positivas para o Cryptosporidium spp., conforme Tabela 1. Das amostras coletadas, 29 (23,58%) foram consideradas diarreicas, das quais 3 (10,34%) apresentavam oocistos de Cryptosporidium spp.. Das 94 (76,42%) amostras não-diarreicas 9 (9,57%) foram positivas para o parasito ( Tabela 2).
A idade em que mais se observou casos positivos foi a de 90 a 120 dias, com 7 animais (58,33%), representando 21,21% dos animais analisados nesta classe (Tabelas 3 e 4). A faixa etária de 30 a 60 dias apresentou 5 (41,67%) animais positivos, representando 13,88% dos animais analisados.
Foi observado ainda que das 9 fazendas analisadas, em 3 (33,34%) foi encontrado o Cryptosporidium spp ( Fazendas E, H, I) e na Fazenda I encontrou-se uma taxa de positividade de 32,25% que representa 83,4% dos animais positivos.
Tabela 1 – Ocorrência do Cryptosporidium spp. por fazenda na Região dos Pereiras, município de Uberlândia – MG – Brasil , 1998.
| Fazenda | Nº Animais | Positivos | % |
| A | 4 | 0 | 0 |
| B | 26 | 0 | 0 |
| C | 10 | 0 | 0 |
| D | 5 | 0 | 0 |
| E | 11 | 1 | 9,09 |
| F | 7 | 0 | 0 |
| G | 10 | 0 | 0 |
| H | 19 | 1 | 5,26 |
| I | 31 | 10 | 32,25 |
| Total | 123 | 12 | 9,75 |
Tabela 2 – Ocorrência do Cryptosporidium spp., de acordo com a consistência das fezes, em bezerros na Região dos Pereiras, município de Uberlândia – MG – Brasil, 1998.
| Oocistos de Cryptosporidium spp. | Diarreicas | Não-diarreicas | Total |
| | Número | % | Número | % | Número | % |
| Positivo | 3 | 10,34 | 9 | 9,57 | 12 | 9,25 |
| Negativo | 26 | 89,66 | 85 | 90,43 | 111 | 90,25 |
| Total | 29 | 23,58 | 94 | 76,42 | 123 | 100 |
Tabela 3 – Porcentagem de bezerros positivos para Cryptosporidium spp., nas diversas faixas etárias, na Região dos Pereiras, município de Uberlândia – MG – Brasil, 1998.
| Idade(meses) | NºAnimais | Positivos | %Animais Positivos |
| 0 – 1 | 19 | 0 | 0 |
| 1 – 2 | 36 | 5 | 13,88 |
| 2 – 3 | 20 | 0 | 0 |
| 3 – 4 | 33 | 7 | 21,21 |
| 4 – 5 | 8 | 0 | 0 |
| 5 – 6 | 7 | 0 | 0 |
| Total | 123 | 12 | 9,75 |
Tabela 4 – Porcentagem de bezerros positivos para Cryptosporidium spp., segundo a idade, na Região dos Pereiras, município de Uberlândia – MG – Brasil, 1998.
| Idade
(meses) | Animais Positivos | % |
| 0 – 1 | 0 | 0 |
| 1 – 2 | 5 | 41,67 |
| 2 – 3 | 0 | 0 |
| 3 – 4 | 7 | 58,33 |
| 4 – 5 | 0 | 0 |
| 5 – 6 | 0 | 0 |
| Total | 12 | 100 |
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DISCUSSÃO
De acordo com os resultados encontrados, observou-se uma taxa de 9,75% de bezerros positivos para o Cryptosporidium spp., que difere dos 25,0% encontrados por MUNDIM et al (1995) e dos 27,87% por GARCIA & LIMA(1993). Presume-se que os resultados podem estar influenciados pelas condições epidemiológicas, manejo, higiene e qualidade da água, pois são fatores que influenciam diretamente sobre a ocorrência do parasito, devido a principal via de infecção ser a oral. E a água têm sido considerada um dos principais meios de contaminação, devido a pouca importância dada pelos pecuaristas quanto a manutenção e limpeza de bebedouros, reservatórios e mananciais, se tornando não só um veículo da criptosporidiose, como também de várias outras doenças.
GARCIA & LIMA (1994) encontraram 11,32% das amostras diarreicas positivas para a presença do oocisto em 251 animais, resultado semelhante aos 10,34% encontrados no presente estudo.
MOORE & ZEMAN (1991) detectaram o Cryptosporidium spp como patógeno causador de diarréia em 277 animais dos 860 analisados (32,20%), diferente dos 3 (10,34%) positivos encontrados em 29 animais diarreicos. No entanto, a criptosporidiose não se manifesta somente em animais com quadro clínico diarreico, ocorre também em animais assintomáticos como os 9,57% encontrados neste trabalho e os 11,5% observado por ORTOLANI apud MUNDIM et al (1995), fazendo com que animais sadios se tornem portadores sãos do parasita e constante fonte de eliminação de oocistos.
Considerando a faixa etária, os resultados encontrados diferem daqueles encontrados por GARCIA & LIMA (1993), em Minas Gerais, tanto para bezerros diarreicos (31,45%) quanto para animais assintomáticos (21,62%).
A idade em que mais se observou casos positivos foi a de 90 a 120 dias com 21,21%, enquanto GARCIA & LIMA (1994) encontrou 24,0% de casos positivos em bezerros com 16 a 30 dias de idade.
GARCIA & LIMA (1994) encontraram oocistos de Cryptosporidium spp em 69,7% das fazendas estudadas em Pará de Minas, fato este não ocorrido neste trabalho, onde das 9 fazendas estudadas somente em 3 (33,34%) foi detectada a presença do parasita e também difere dos resultados encontrados por LEEK & FAYER (1984) e MANN et al. (1986) que observaram 75,0% e 63,3% das propriedades positivas, respectivamente. A ocorrência pode estar sub-estimada, pois mesmo a técnica de Ziehl-Neelsen modificada sendo bastante sensível e específica, através dela é difícil detectar amostras com baixas quantidades de oocistos, o que resultaria em falsos negativos.
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CONCLUSÃO
Através dos resultados obtidos, podemos concluir que 33,34% das fazendas estudadas, apresentaram animais positivos para o Cryptosporidium spp., com uma ocorrência de 9,75%, que corresponde a 10,34% das amostras diarreicas e 9,57% das amostras não-diarreicas.
Na faixa etária dos 90 a 120 dias, é a que apresentou maior número de casos positivos (21,21%). A presença de oocistos pode ocorrer tanto em bezerros com diarréia, como sem diarréia, não ocorrendo diferença estatisticamente significativa (p<0,05).
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ANEXOS
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Figura 1 – Oocistos de Cryptosporidium spp. em esfregaço de fezes, corados pelo método de Ziehl-Neelsen modificado, observados no aumento de 800x ao microscópio óptico.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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